é interessante observar que a fotografia registra instantes bem específicos, e, se utilizada com frequência, mostra a passagem do tempo, como um stop motion prolongado. pudemos ver nosso avanço e a mutação física, das pessoas e do espaço do ateliê. o mesmo ocorre em grande escala com a cidade, quando vemos os arquivos fotográficos antigos, documentos preciosos à memória de uma população.
bom, essa importância de registro da passagem do tempo, coisa misteriosamente rica, vem atrelada à beleza intrínseca do fazer uma imagem.
Num fluxo contínuo um momento é congelado, um instante preciso, que, separado desse fluxo, revela por vezes a essência de seu movimento, a disposição de suas partes. Esse congelamento da luz na placa sensível é um ato secundário, sendo sua fonte a visão, o olho. Mas ainda assim é primário enquanto ato do fazer e qundo, depois, é mostrado - o olho se encaixa no no olho da lente, e indica o que vai ser gravado pela luz na prata. mas outro olho (de quem vê a imagem "já pronta") vai ver a impressão {ampliação - foto}. - Todo este ato de registro então, pode - e é - interessante, por isso, e gera imagens belas, se se alinhar à beleza desse fluxo-fonte.
Está aí, ao meu ver, uma das mágicas da imagem. Essa reflexão a respeito da fotografia nos levaà uma segunda reflexão: sobre qualquer imagem feita. Obviamente não é só a fotografia que registra a passagem do tempo, a pintura condensa por vezes em uma só imagem infinitos momentos, pois é um registro direto do corpo - da visão, do olho, do tato, do olfato, enfim, do sentidos, da sensação - através do corpo - idem - do homem, que percebe ao mesmo tempo mil momentos e tenta registra-los, compreende-los e depois mostrar o fruto de sua busca: a imagem. Pois essa busca pode ser interna, e a pintura permite o registro dessa viagem por dentro, enquanto a fotografia nos dá as projeções da luz nos espaços exteriores - o que também não significa que as imagens produzidas pela luz não são registros internos, pelo contrário, mas por aí vamos à loucura, preciso ter algum foco.

Edgar Degas, A família Bellini, 1858-67, óleo sobre tela, 200 x 250 cm, Musée Dorsay, Paris.
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